Atenção candidatos: acidentes de trânsito custam 70% mais que investimentos em segurança pública

01/10/2018

Rodrigo Tortoriello*

A sociedade discute ativamente os problemas que temos de segurança pública. Segundo dados de uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) sobre as prioridades julgadas pelo eleitor brasileiro, o tema “segurança pública” aparece como o terceiro mais relevante para 36% dos brasileiros, só ficando atrás de saúde e educação, respectivamente.

Estamos no período de campanha eleitoral e os candidatos à Presidência da República estão percorrendo diversas cidades pelo país. A importância que o brasileiro está dando para o assunto é bastante relevante se considerarmos que, pela primeira vez, superamos a marca de 30,3 assassinatos a cada 100 mil habitantes, conforme estudo publicado pelo IPEA, que leva em consideração os dados de 2016, quando foram registrados 62.527 homicídios.

A Semana Nacional do Trânsito se encerrou no último dia 25 e em 2018 o Código de Trânsito Brasileiro fez 20 anos. De acordo com dados do Ministério da Saúde, foram registradas 662.219 mortes de 1998 a 2015 em decorrência dos acidentes de trânsito. Em 2017, foram contabilizadas pelo DPVAT 60,7 mil mortes, além de 352 mil casos de invalidez permanente.

É interessante notar que o número de mortes nos dois casos apresentados acima é bastante similar e igualmente assustador. Entretanto, por qual motivo os dados do trânsito não deixam os cidadãos brasileiros igualmente chocados como no caso da segurança pública? Seria o fato de tratarmos as ocorrências de trânsito como “acidentes”? Ainda que fosse apenas um acidente, o que pode levar a uma interpretação de que tenha sido um caso fortuito, um imprevisto ou uma casualidade, o que isso representa para você que não esteve diretamente envolvido em um desses milhares de acidente de trânsito?

Em 2017, a Escola Nacional de Seguros, através do Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (CPES), estimou que no ano anterior o prejuízo com a violência no trânsito foi de R$ 146,8 bilhões. O valor é maior do que o déficit previsto no orçamento da União para 2019, que atinge os R$ 139 bilhões. Se comparado com o Produto Interno Bruto do país, o valor representa 2,3% ou quase toda a riqueza produzida no ano de 2015 pelo estado de Pernambuco.

Voltando à preocupação dos brasileiros com segurança pública, durante o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizado em São Paulo no início de agosto, foi divulgado que o montante investido na área da segurança pública somou R$ 84,7 bilhões. Diante desses dados, podemos chegar à conclusão de que os acidentes de trânsito custam ao país cerca de 70% a mais do que se investe para a melhoria da segurança no Brasil.

O Observatório Nacional de Segurança Viária estima que a falha humana é responsável por 90% dos acidentes de trânsito no país e apenas 5% se referem a condições inadequadas do veículo. Dentre as falhas humanas destacamos o excesso de velocidade, o uso do celular ao dirigir e o consumo de bebidas alcoólicas.

No final de agosto, aconteceu em São Paulo o I Encontro de Entidades do Sistema Nacional de Trânsito (SNT), promovido pela ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, e muitos desses dados foram apresentados e debatidos. Diante do tamanho do problema com os acidentes de trânsito, que se apresenta tão grave quanto o da violência urbana, é de fundamental importância alertar aos nossos candidatos que se colocaram para nos representar nos governos federal e estadual, da relevância de se incluir nos programas de governo e plataformas legislativas uma política pública que ajude a reduzir os números catastróficos que estamos vivenciando.

Se cada um de nós entender que a mudança passa por nós mesmos e pelas nossas atitudes no dia a dia no trânsito, não seria necessário que fossem investidas grandes somas de dinheiro para evitar os acidentes de trânsito. Entretanto, parece que essa estratégia não está funcionando adequadamente. Está mais do que comprovado que a fiscalização ostensiva tem dado resultados positivos, preservando vidas e reduzindo de acidentes. Se chegarem com aquela ideia de indústria da multa, convença-o de que se não fornecermos a matéria prima qualquer indústria quebra. O que para eles é uma indústria de multas, para nós é uma indústria de vidas!

*Rodrigo Tortoriello, é mestre em Transport Business pela Coppe-UFRJ e Graduado em Administração de Empresas pela UFJF. Desde 2013 ocupa o cargo de Secretário de Transporte e Trânsito no município de Juiz de Fora. Desde 2014 preside o Fórum Mineiro de Gestores de Transporte e Trânsito da ANTP e em maio de 2018 assumiu a Presidência do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana da mesma entidade. 

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