CONTEÚDO EXCLUSIVO: “Aqui, as condições para a bicicleta são melhores do que na Europa”

01/10/2008

Alexandre Mata Tortoriello

Há menos de uma semana, o metrô de São Paulo inaugurou seu programa público de aluguel de bicicletas, o MetroCiclista. O Rio de Janeiro planeja lançar o seu em novembro. Ambos foram inspirados na experiência do Vélib, em Paris. Lançado em julho de 2007, o sistema francês tem estações para aluguel e devolução de bicicletas “praticamente em cada quarteirão”, destaca José Lobo, presidente da ONG Transporte Ativo. São 22 mil bicicletas espelhadas por setecentos pontos da capital francesa. Para ele, as iniciativas paulistana e carioca são importantes para ajudar a reduzir poluição e os congestionamentos, mas falta ao brasileiro das grandes cidades a cultura de usar a bicicleta como meio de transporte.

Transporte, Idéias & Notícias: A Europa tem uma tradição histórica no uso da bicicleta, mas o clima na maior parte do Brasil não é quente demais para convencer as pessoas a utilizá-la como meio de transporte?

José Lobo: Aqui as condições são até melhores do que na Europa, onde no inverno faz um frio absurdo, neva e o pessoal continua usando. O que falta é uma cultura da bicicleta como meio de transporte, porque aqui ela é encarada como brinquedo. Não só como meio de transporte para o trabalho, mas para todo aquele percurso que você faz de três a sete quilômetros. Ir ao banco, à padaria. De bicicleta dá para fazer esses percursos em 20, 30 minutos, sem esforço. Isso faz bem para a saúde e você ainda deixa de parar em fila dupla, queimar combustível… E 50% dos deslocamentos de carro na cidade são inferiores a sete quilômetros. Você tem a vantagem de fazer exercício, não gastar um tostão e não estar poluindo. No Rio, grande parte da cidade está no plano. Milhões de pessoas poderiam usar.

TIN: Isso também vale para cidades de relevo mais acidentado, como Belo Horizonte e São Paulo?

Lobo: Hoje já temos bicicletas de 21, 29 marchas. Com elas você consegue vencer qualquer ladeira como se estivesse no plano. Em Belo Horizonte, o uso da bicicleta é muito grande.

TIN: Mas não é preciso gostar de bicicleta para usá-la como meio de transporte?

Lobo: Na Holanda, tem muita gente que não gosta, mas usa porque reconhece as vantagens dela como meio de transporte. Uso a bicicleta para maioria dos meus deslocamentos. Engarrafamento é coisa que só vejo nos jornais e presencio na rua, mas não fico parado nele. Quando o túnel Rebouças (uma das principais ligações entre as zonas norte e sul do Rio) ficou interditado e deu um nó no trânsito, para mim foi uma maravilha, porque nem com os motoristas que não respeitam o ciclista eu tive que me preocupar.

 TIN: E quando chove? 

Lobo: Sexta-feira, eu tive uma reunião no centro. Estava uma garoinha, pus uma capa de chuva e cheguei tranqüilo. Quando chove forte, às vezes uso táxi. A chuva atrapalha mais do que o calor. Quando está calor, você vai devagarzinho, não sua e ainda aproveita a brisa.

TIN: A cultura da bicicleta está presente em muitas cidades, geralmente pequenas, e mesmo em determinados bairros das metrópoles, como é o caso de Campo Grande e Santa Cruz, na zona oeste do Rio. Como fazer para que ela seja mais disseminada na sociedade?

Lobo: Precisamos de campanhas educativas. Mais uma vez, vem aquela questão da falta de informação. Todo estacionamento subterrâneo do Rio de Janeiro é obrigado a ter bicicletário com chuveiro e escaninho. Até mesmo ciclistas não sabem. Quando a gente diz, as pessoas ficam maravilhadas. Não é divulgado. Já usei um desses banheiros para tomar banho antes de ir a um compromisso e era muito bom, tudo limpinho. É uma coisa que está começando aos pouquinhos. Alguns prédios novos estão implantando isso também. Mas as pessoas precisam saber.

No fim de semana, o metrô do Rio inaugurou um bicicletário em Copacabana. Mas de que adianta eu fazer ciclovia, bicicletário, integração com o metrô se as pessoas não souberem disso. É muito importante a conscientização da população. É preciso divulgar, massificar o conceito de utilização da bicicleta. Nos nossos seminários, procuramos fazer com que as pessoas se tornem multiplicadores da idéia. Começamos em 2003 e, desde então, temos visto uma aceitação maior. E não é só por causa de aquecimento global, ou dos problemas de transporte. A bicicleta não é a solução para o trânsito, mas é uma das soluções, junto com outras alternativas.

TIN: Fala-se muito em exemplos europeus, mas podemos nos espelhar em outras cidades latino-americanas, cujas realidades são mais parecidas com a nossa?

Lobo: Sim. Bogotá, na Colômbia, tem mais de 300 quilômetros de ciclovia. É a maior malha cicloviária da América Latina. (O Rio tem a maior do país, com 150 quilômetros) Fizeram uma restruturação completa da cidade e incluíram o uso da ciclovia.

TIN: Mas a bicicleta ainda não “pegou” entre os bogotanos…

Lobo: O uso da bicicleta vem crescendo, hoje está em 3% dos deslocamentos. No Rio, o percentual é o mesmo. Na Europa, 20% dos deslocamentos são feitos com ela. Mas os europeus levaram de 30 a 40 anos para terem a cultura que têm hoje. De repente, daqui a uns 15 anos a gente pode chegar a um estágio bem promissor. O Rio vem promovendo a bicicleta desde 1992, é um processo longo.

TIN: Em que medida essas iniciativas de aluguel de bicicleta podem ajudar a forjar uma cultura de ciclismo?

Lobo: São Paulo está começando, mas com uma visão de uso para lazer. O objetivo é que você use a bicicleta por pouco tempo. São poucas estações. Um sistema como esse deve incentivar o uso para o deslocamento rápido dentro de um bairro ou entre bairros. Mas hoje, você não tem nada que facilite a sua circulação entre uma estação e outra. Se não tiver um esquema que dê segurança ao usuário, ele vai a pé ou de ônibus. Não estamos falando de quem já está acostumado ao uso da bicicleta, mas de alguém que vai experimentar. Se você chega numa área onde não tem estação para devolução, você vai continuar pagando sem usar. Em Paris, a cada 300 metros você tem uma estação, então você vai a qualquer lugar. É praticamente uma por quarteirão.

Aqui no Rio, o estado disse que iria lançar e não fez nada. Mas a prefeitura está lançando. Começa em 20 de novembro, com oito estações em Copacabana e Ipanema. Até o fim do ano que vem, serão instaladas 50 estações (com dez bicicletas cada), algumas em estações de metrô e outras não. Assim, vai ser possível fazer integração. Você pega a bicicleta, vai até o metrô e continua a viagem. Eu faço isso com a minha particular. O aluguel virou uma febre no mundo inteiro. Todas as cidades estão querendo implantar. Em algumas vai dar certo, em outras não. Depende das características de cada uma.

No Rio, a prefeitura está fazendo uma série de rotas que facilitam a circulação entre uma estação e outra, com sinalização específica. O que falta é promoção. Em Paris, eles fizeram uma divulgação tão grande, que quando inaugurou, já tinha até fila para o cadastramento. Aqui saiu no Diário Oficial. Tem uma notinha aqui ou ali, mas não é tão divulgado. O Vélib incentivou o uso da bicicleta particular também. Muitos parisienses usaram, gostaram e resolveram comprar a sua para não ter que depender de encontrar uma disponível nas estações de aluguel.

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