Antônio Carlos Bento – “O motorista esquece que ele será o maior beneficiado se cuidar do carro de forma consciente”

05/08/2008

Uma pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Manutenção Automotiva (GMA), que reúne todas as entidades que formam a cadeia da reposição automotiva (Sindipeças, Andap, Sincopeças-SP e Sindirepa-SP), apontou que 27% dos acidentes de trânsito têm alguma ligação com a manutenção dos veículos. Pensando em mostrar aos motoristas a importância de fazer manutenção preventiva como forma de evitar acidentes e problemas de quebras inesperadas que tanto prejudicam o trânsito nas grandes cidades, o GMA criou as campanhas Carro 100% e Caminhão 100%.

 

Em entrevista à Agência ABCR, o coordenador do GMA, Antônio Carlos Bento, explica as ações desenvolvidas pelo Grupo, que também contam com o apoio do Ministério das Cidades, Denatran e CET. Bento, que trabalha há 23 anos na indústria automotiva e, há dois, coordena as atividades do GMA, revela aspectos interessantes do relacionamento dos motoristas com seus veículos e fala também das punições que podem ser aplicadas aos condutores que não mantém seus automóveis em bom estado de conservação.

 

De que forma a falta de manutenção de veículos é causadora de acidentes em rodovias e vias urbanas? Há estatísticas a respeito?

 

Baseado em uma pesquisa inédita no Brasil, o Grupo de Manutenção Automotiva (GMA) identificou que o fator veículo foi responsável por 27% dos acidentes em uma amostra de mais de três mil ocorrências. Além disso, as Inspeções Veiculares Gratuitas, realizadas desde dezembro de 2006 na cidade de São Paulo, revelam que os mais de dois mil veículos inspecionados apresentaram um ou mais problemas nos itens checados.

Todos esses dados apontam que o motorista não faz manutenção preventiva, apenas a corretiva (quando o carro já apresenta o problema). O motorista esquece que ele será o maior beneficiado se cuidar do carro de forma consciente, fazendo revisões periódicas em uma oficina de confiança.

A manutenção preventiva evita transtornos com quebras inesperadas, permite programar os gastos com reparos e também aumenta o valor da revenda do veículo. Um carro em boas condições é mais facilmente comercializado e possui preço superior ao do mesmo modelo que não está conservado. Na cidade de São Paulo, por exemplo, onde o trânsito é caótico, os veículos quebrados em avenidas e em corredores de grande circulação de tráfego, além provocarem congestionamentos, também podem causar acidentes. Segundo a CET – Companhia de Engenharia de Tráfego - são removidos diariamente das ruas 407 veículos nos dias úteis e 113 nos fins de semana, totalizando 9.176 veículos por mês. E os principais problemas apresentados são: falhas mecânicas (4.870); panes elétricas (1.811); pneu furado (546) e falta de combustível (106). Além das imprudências do motorista, como dirigir alcoolizado e excesso de velocidade, o estado do veículo também pode ser uns dos fatores que causa acidentes no trânsito.

 

Quais são os objetivos da campanha?

 

Denominada “Carro 100% - Quem tem chega bem”, com a versão Caminhão 100% para a linha pesada, a campanha tem como objetivo conscientizar o motorista sobre a importância da manutenção preventiva. O projeto contempla divulgação de campanha publicitária educativa (anúncios em rádio e em revistas especializadas no setor automotivo de circulação nacional), treinamento nas áreas de gestão e capacitação profissional para proprietários e funcionários de lojas e oficinas de reparação, além de oferecer condições para a preparação de certificação de qualidade dessas empresas. A idéia é sensibilizar o motorista sobre a importância dos cuidados com o seu veículo, apresentando os benefícios dessa prática. A campanha envolve todos os elos dessa cadeia da reposição automotiva (fabricantes de autopeças, distribuidores, varejistas e oficinas de reparação) por meio de suas respectivas entidades (Sindipeças, Andap, Sincopeças-SP e Sindirepa-SP) que formam o GMA - Grupo de Manutenção Automotiva.

 

Como esses projetos foram desenvolvidos?

 

AC - Para chegar à criação de uma campanha que estimule o motorista a fazer manutenção preventiva foi preciso estudar o mercado. E foi por meio de pesquisa de comportamento do consumidor com relação aos cuidados com o carro que descobrimos que o brasileiro não tem esse hábito. O gasto em manutenção, no Brasil, é muito baixo, cerca de R$ 900,00/ano, incluindo troca de óleo e uma média de quatro visitas à oficinas em 12 meses. Nos EUA, o gasto médio é de US$ 1.000,00/ano. Por outro lado, 80% dos entrevistados disseram que preferem levar o carro em uma oficina de confiança ao invés de uma concessionária de marca, sendo que 14% admitiram fazer isso mesmo quando o carro ainda está na garantia de fábrica. Percebemos, então, que a figura do mecânico de confiança é muito forte junto ao consumidor. Por isso, vimos potencial para desenvolver a campanha Carro 100%.

 

Após 23 anos trabalhando na indústria automotiva, o senhor consegue entender a razão pela qual as pessoas não cuidam corretamente dos seus veículos?

 

Pesquisas mostram que o motorista brasileiro não tem o hábito de fazer a manutenção preventiva em seu veículo, levando o carro em uma oficina de confiança apenas quando o mesmo já apresenta um problema. Para mudar esse comportamento leva tempo. Muitas vezes, o motorista não faz a manutenção preventiva por falta de informação. Percebemos isso nas pesquisas, eles não sabem quando devem fazer a troca, por exemplo, de uma simples palheta de pára-brisa que, com o uso em excesso, pode riscar o vidro e prejudicar a visibilidade. Costumamos dizer que não existem veículos velhos e, sim, veículos mal conservados. Nesse caso, não importa a quilometragem registrada no hodômetro, mas o seu estado de conservação. O tempo e o uso geram desgastes de peças que devem ser substituídas por outras novas de qualidade e de procedência conhecida. E o mais importante é que a manutenção preventiva é três vezes mais barata do que a corretiva, mas as pessoas desconhecem isso.

O lado bom de tudo isso é que durante os IVGs (Inspeções Veiculares Gratuitas) que foram realizadas em São Paulo os motoristas ficavam interessados em saber informações sobre o estado do veículo. Isso mostra que há muita falta de informação por parte dos motoristas com relação aos cuidados que devem ter com o veículo. Com a inspeção ambiental na cidade de São Paulo, essa preocupação deve aumentar ainda mais no ano que vem, quando a medida for implantada para veículos movidos a gasolina e a álcool.

 

O senhor acha que os motoristas cujos veículos quebram por falta de manutenção deveriam ser multados como quem tem o veículo parado na via pública por falta de combustível?

 

O Código de Trânsito Brasileiro já prevê punição para veículos que circulam em mau estado de conservação. É uma questão de preservação da vida, andar com veículo em bom estado. Por isso, acho importante que haja punição. Além disso, mais de 40 mil pessoas morrem todos os anos vítimas de acidentes de trânsito e muitos deles poderiam ser evitados se os veículos estivessem em boas condições de uso. Veja o que está acontecendo recentemente com a lei seca: houve maior rigor e os acidentes diminuíram drasticamente. Então, percebemos que, quando há mais rigor, há também mais respeito e sensibilização. Veja alguns exemplos em que a falta de manutenção gera punição:


• Pneus carecas e falta de estepe ou sem condições de uso são consideradas infrações graves (cinco pontos na carteira de habilitação).
• Estar com uma ou mais luzes queimadas é considerado infração média (quatro pontos na carteira).
• Trafegar com o farol desregulado ou com facho de luz alta de forma perturbar a visão de outro condutor é infração grave (cinco pontos na carteira).
• A infração para quem trafega sem cinto de segurança é grave (cinco pontos na carteira).
• Quando está chovendo se o limpador do pára-brisa não estiver funcionando, o motorista pode ser autuado e a infração é grave (cinco pontos na carteira).
• A infração para quem trafega com o extintor de incêndio vencido é de cinco pontos na carteira.
• Vazamento de óleo na pista é considerado infração gravíssima, o motorista perde sete pontos na carteira de habilitação.
• A punição para quem trafega com extintor de incêndio, macaco ou triângulo de segurança fora de condições de uso e de cinco pontos na carteira.

 

Fonte: ABCR

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